segunda-feira, 4 de maio de 2009

AFONSO DA MAIA VEM VIVER NO RAMALHETE NO OUTONO DE 1875


A casa, depois de arranjada, ficou vazia, enquanto Carlos, já formado, fazia uma longa viagem pela Europa; - e foi só nas vésperas da sua chegada nesse lindo Outono de 1875, que Afonso se resolveu a deixar Santa Olávia e vir instalar-se no Ramalhete. Havia vinte e cinco anos que não via Lisboa; e, passados poucos dias, confessou ao Vilaça que estava com saudades da calma, tranquilidade e sossego de Santa Olávia. Mas, que remédio! Não queria viver separado do neto; e Carlos agora tinha ideias sérias de começar a trabalhar em Lisboa. De resto, não desgostava do Ramalhete, agradava-lhe também muito a vizinhança e gostava até do seu quintalito. Não era como o jardim de Santa Olávia, mas tinha o seu ar simpático, com os girassóis perfilados ao pé dos degraus do terraço, com o cipreste e o cedro juntos como dois amigos tristes e com a estátua do parque, a clara e bela estátua de Vénus.





1. Acabaram as obras no Ramalhete, mas a casa continua sem moradores. Qual a razão?
2. Quando é que o avô de Carlos da Maia decidiu vir instalar-se no Ramalhete?
3. Quantos anos viveu Afonso da Maia em Santa Olávia?
4. Que confissão fez Afonso da Maia ao procurador?
5. Explique a razão pela qual Afonso da Maia ficou a viver no Ramalhete.
6. Faça a descrição do jardim da casa do Ramalhete.
7. Como classifica o narrador presente neste texto?
1. Em cada uma das séries dadas, indique o intruso:
1.1. arranjada, reparada, laranjada, consertada, restaurada
1.2. chegada, aparecimento, vinda, jantarada, regresso
1.3. confessou, revelou, declarou, passeou, anunciou
1.4. triste, chorosos, presunçoso, desgostoso, magoado
1.5. bela, curiosa, formosa, graciosa, harmoniosa

2. Escreva o antónimo de:

2.1. vazia
2.2. chegada
2.3. começar
2.4. simpático
2.5. clara

3. Preencha os espaços com a preposição correcta:

3.1. Afonso da Maia queria viver _________ o neto _________ Lisboa _________casa _________ Ramalhete.
3.2. Carlos da Maia saiu _________ Coimbra, passou _________ Paris e _________ Londres e demorou-se bastante tempo _________ Oslo.

4. Preste atenção às frases:

O jardim do Ramalhete não era como o de Santa Olávia.
O jardim tinha um ar simpático.

4.1. Transforme as duas frases simples numa frase complexa, estabelecendo entre elas uma relação de oposição.

5. Encontre a personificação que se encontra no texto «Afonso da Maia vem viver no Ramalhete no Outono de 1875».

6. Escreva uma frase em que esteja presente uma personificação.

quinta-feira, 30 de abril de 2009

QUEM ERAM OS MAIAS?



Os Maias eram uma antiga família da Beira, sempre pouco numerosa, sem parentela – e agora reduzida a dois varões, o senhor da casa, Afonso da Maia, um velho já e o seu neto Carlos que estudava medicina em Coimbra. Quando Afonso se retirara definitivamente para Santa Olávia, o rendimento da casa excedia já cinquenta mil cruzados: mas desde então tinham-se acumulado as economias de vinte anos de aldeia. Tinha também havido a herança de um parente, Sebastião da Maia, que desde 1830 vivia, sem mais família, em Nápoles, ocupando-se de numismática. Vilaça, o procurador da família Maia podia sorrir com satisfação quando dizia que a família ainda tinha algum dinheirinho para a manteiga de uma fatia de pão.

Vilaça tinha aconselhado a venda da Tojeira, mas nunca tinha concordado com Afonso quanto à venda da casa de Benfica.

Agora, os Maias, com o Ramalhete inabitável, não possuíam uma casa em Lisboa; e se Afonso naquela idade amava o sossego de Santa Olávia, o seu neto, rapaz de gosto e de luxo que gostava de passar as férias em Paris e em Londres, não queria, depois de formado, ir viver nos penhascos do Douro.

E com efeito, meses antes de Carlos deixar Coimbra, Afonso espantou Vilaça quando lhe anunciou que decidira vir habitar o Ramalhete. O procurador fez um extenso relatório a enumerar os inconvenientes do casarão: o maior problema era o da casa necessitar de muitas obras.
1. Quem são os Maias?
2. Indique o nome dos dois varões da família.
3. Que relação de parentesco existe entre os dois homens?
4. Como classifica a situação financeira da família Maia?
5. Quem lhes deixou uma herança?
6. Qual a profissão de Vilaça?
7. Afonso da Maia seguia sempre os conselhos que o procurador lhe dava? Justifique a resposta.
8. O avô e o neto têm os mesmos gostos? Ilustre a resposta com o texto.
9. Para onde vão os Maias viver quando Carlos acabar o curso de medicina?
10. Afonso da Maia informou que vinha viver para o Ramalhete. Qual foi a reacção de Vilaça?
11. A casa já estava pronta para ser habitada?
12. Como classifica o narrador deste texto?



II

1. Em cada uma das séries dadas, indique o intruso:

1.1. Reduzida, abreviada, atenuada, resumida, relatada
1.2. Misturara, afastara, retirara, apartara, desligara
1.3. Excedia, comia, sobrava, passava, sobejava
1.4. Acumulado, passado, reunido, juntado, armazenado
1.5. Satisfação, contentamento, inconveniente, gosto, agrado

2. Escreva o antónimo de:

2.1. numerosa
2.2. sem
2.3. reduzida
2.4. neto
2.5. definitivamente
2.6. mais
2.7. algum
2.8. venda
2.9. inabitável
2.10. extenso

3. Coloque a preposição adequada:

3.1. Os Maias eram naturais ______ Beira, possuíam um bom rendimento e receberam a herança ______ um parente que vivia ______ Itália.
3.2. Afonso, já velho, ______ o sossego ______ Santa Olávia, mas Carlos gostava mais ______ luxo ______ vida ______ Lisboa.
4. Releia o texto “Quem eram os Maias” e transcreva os aumentativos encontrados.
5. Elabore duas frases usando aumentativos diferentes.

III

Afonso da Maia gosta mais da calma, do sossego e da tranquilidade de Santa Olávia.
Carlos da Maia prefere a vida agitada das grandes capitais, por isso, nas férias vai para Paris, Londres,… e, quando acabar o curso, quer ir viver para Lisboa.

Em não mais de vinte linhas, indique se gosta mais da vida no campo ou na cidade, explicando as razões da sua preferência.

segunda-feira, 27 de abril de 2009

OS MAIAS



Obra-prima de Eça de Queirós, publicada em 1888, e uma das mais importantes de toda a literatura narrativa portuguesa. É um romance realista e naturalista onde não faltam o fatalismo, a análise social, as peripécias e a catástrofe próprias do enredo passional.

A obra ocupa-se da história de uma família – Maia – ao longo de três gerações, centrando-se depois na última geração e dando relevo aos amores de Carlos da Maia e Maria Eduarda. Mas a história é também um pretexto para o autor fazer uma crítica à situação decadente do país (na política e na cultura) e à alta burguesia lisboeta oitocentista, por onde perpassa um humor (ora fino, ora satírico) que configura a derrota e o desengano de todas as personagens.

quinta-feira, 16 de abril de 2009

Eça de Queirós - Biobibliografia



José Maria Eça de Queirós nasceu em 1845, na Póvoa de Varzim e morreu em 1900, em Paris. Estudou Direito em Coimbra, onde conheceu outro escritor, Antero de Quental, de quem se tornou muito amigo.

Em 1867 funda o jornal O Distrito de Évora.

Com outro escritor, Ramalho Ortigão, publica no Diário de Notícias, em folhetins, O Mistério da Estrada de Sintra (1870). No ano seguinte começa a publicar As Farpas. Concorre à diplomacia, começando por ser cônsul em Havana, depois em Newcastle e a partir de 1888 em Paris. Em Inglaterra, Eça de Queirós escreveu grande parte da sua obra, através da qual se revela um dos mais importantes escritores da língua portuguesa.

Eis as suas obras mais importantes: O Crime do Padre Amaro (1878), A Relíquia (1887), Os Maias (1888 – considerada a sua obra-prima), A Ilustre Casa de Ramires (1897) e A Cidade e as Serras (1899). Parte da restante obra foi publicada já depois da sua morte.

quinta-feira, 12 de março de 2009

O vizinho misterioso



Foi no ano passado e era Outono. Não o Outono verdadeiro, sem verde nas copas, com o chão carregado de pequenas manchas douradas das folhas pelas árvores. Não era o Outono frio a soprar e a chuva a cair. Era só o início da estação, ainda havia sol, um pouco das lembranças da praia, os preparativos para um novo ano lectivo e um tom bronzeado na pele onde sobrava um bocadinho de sabor a sal da água do mar.
Eu vinha para casa, sozinho, carregado com dossiers novos, canetas novas e muitas ideias novas. Ao entrar na minha rua ouvi miar. Dei facilmente com o gato: tinha os olhos mais bonitos que jamais vi num gato. Eram azuis e olhavam-me a pedir. Pedia alguma coisa aquele gato. Qualquer coisa: uma migalha que fosse, de preferência barrada de afecto. Notava-se bem que o animal já não comia há muito tempo. Tinha as costelas a verem-se, parecia a grade de ferro que há à entrada da minha escola, toda às risquinhas por ali fora...
Sem pêlo, era uma chaga viva. Fora muito mal-tratado e tinha uma ferida enorme na cabeça...
Hesitei por momentos e pedi-lhe que me esperasse.
Coloquei os meus embrulhos à porta e voltei para o buscar.
Certamente fora abandonado por alguém que partira para férias e, muito simples e cruelmente, não se estivera para ralar com ele.
Agarrei-o com cuidado, não o fosse magoar ou ele magoar-me a mim, assustado e a recordar-se de experiências recentes. Ele deixou-se apanhar com facilidade, talvez sem capacidade de revolta, talvez porque, finalmente, confiasse em alguém.
Levei-o para casa.
A princípio, julguei que os meus pais me iam atirar pela janela fora mais o gato. Nada disso se passou. Os três, os meus pais e eu, durante semanas seguidas, tratámo-lo com todo o cuidado.
Aos olhos azuis, pouco a pouco, foi-se juntando uma pelagem amarelada que escureceu com o tempo. Na Primavera tínhamos um gato novo.
O Anti-Ratos - é esse o seu nome - é hoje um siamês gordo e preguiçoso, feliz.

Alexandre Honrado, O Vizinho Misterioso




domingo, 5 de outubro de 2008

José Rodrigues Miguéis (1901-1980) escreveu um jornal de bordo onde fala das difíceis situações que viveu na sua condição de emigrante.

(Jornal de bordo – 1935)

Desta viagem no velho Arlanza até Sou’t’n vou guardar uma indelével memória. Deixo no cais o punhado de amigos que tenho, e que o tempo e a distância provavelmente irão reduzindo e esbatendo até ao esquecimento. Não vai comigo a bordo ninguém que me possa ajudar a atenuar, pelo convívio, a chaga dos problemas que me ficam no rasto, nem a solver o enigma que do outro lado do Atlântico me espera. A vida é uma cadeia de esfinges irrespondíveis, e é preciso correr ao longo delas, avançar sempre, acreditando que existe algures a solução… A solidão faz-me sofrer: atenua-a porém o interesse que me despertam os companheiros de viagem – talvez devesse antes dizer, de infortúnio. Com eles depressa esqueço, ou quase, o que me dói.

É preciso ter viajado num destes transatlânticos para se fazer uma ideia das fronteiras que separam os homens e as classes, mesmo dentro duma casca de noz. E somos poucos, aqui, não mais de cinquenta: que faria se fôssemos os duzentos ou quatrocentos da lotação, só Deus sabe, amontoados na imunda gafaria que é a terceira classe dos emigrantes.

O Arlanza regressa da América do Sul a Southampton, na Inglaterra, com escala na Madeira, em Lisboa, na Corunha e em Cherburgo, carregando no bojo mercenário um punhado de viajantes da casta de todas a mais triste: os de torna-viagem. Os que um dia distante partiram num porão, e, corridos anos, voltam à terra que lhes foi berço, no âmago dum sepulcro flutuante que um veterinário teria condenado como impróprio para o gado do açougue. Ao partir, levavam consigo ao menos uma esperança: agora nem isso lhes resta. Muitos deles, com o sonho, seu único luxo, perderam por lá a saúde e a força de trabalho que era toda a sua riqueza.

Com estes, os de torna-viagem, embarcaram na Madeira e agora comigo, em Lisboa, alguns portugueses que vão, como eu, à Inglaterra tomar o paquete para os Estados Unidos. Assim se juntam aqui, embora com destinos e em estados de alma opostos, duas correntes da mesma miséria: uma delas, ainda quente do sol da ilusão, parte para zonas mais temperadas e prósperas do Leste americano; a outra regressa lá do equador e do trópico, fria de desapontamento, esfarrapada e escrofulosa, para se dispersar por todos os cantos deste nosso mundo cristão e ocidental. Correntes humanas, num inquieto e perpétuo corropio em torno destoutro mar de sargaços, a vida.

Enquanto dura o sol da costa portuguesa, tudo vai bem: mas logo que passamos as alturas de Leixões, chove, está frio (em Julho!), e a maioria dos viajantes, vindos de climas mais benignos, alguns doentes, somem-se nas profundezas cavernosas do navio, onde reinam todos os cheiros inimigos do homem, entranhados em vinte anos de uso pelos dejectos da raça.

José Rodrigues Miguéis, Gente de Terceira Classe

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

6ª aula - 2 de Outubro de 2008


UM JOGO

Pronto, ganhámos, foi um belo jogo, trabalhado, suado, sofrido até mesmo ao último segundo, merecemos a alegria. Mas, caramba!, foi um jogo, não foi o resgate da pátria das garras do inimigo!

Que loucura é esta, que desvario é este que parece ter tomado conta de toda a gente? Que patriotismo é este que se sustenta das chuteiras de vinte e dois jogadores de futebol? Havia necessidade de se recorrer à linguagem tontamente bélica que por aí anda em cartazes? Aljubarrota?! (foi uma batalha, morreu gente!) A Padeira? (Matou à pazada uma data de fugitivos indefesos!)

E – cerejinha em cima do bolo – aquela escritora que foi à televisão aconselhar calminha aos ingleses, recordando-lhes que, enfim, quando se confrontaram connosco na Invencível Armada, «as coisas não lhes correram nada bem»…

Quer dizer: se a euforia futebolística ainda não chega para mudar o rumo à História, é bom lembrar que quem não se deu mesmo nada, nada bem nesse confronto fomos nós, nunca os ingleses que de lá saíram a cantar de galo…

Talvez não fosse mau, antes de mandarmos bitates, fazer uma revisão da História, já que a queremos usar como arma de arremesso.

Lembrar-me eu do que sofreu o pobre actor João Grosso aqui há uns anos por ter cometido a ousadia de, num espectáculo, utilizar o hino português noutro ritmo e noutra batida – e nos símbolos da Pátria ninguém tocava! Quando hoje vejo outro símbolo da Pátria andar por aí amarrado ao rabo, à cabeça, ao peito, aos braços de toda a gente, confesso que me sinto um pouco perplexa…

Mas enfim, quando daqui a dias a maluqueira passar, e todos regressarem à dura realidade que os espera, tenho fé que alguma coisa de positivo resulte de tudo isto: alguma auto-estima, e que, de uma vez por todas, tenham aprendido as palavras do Hino Nacional.

Alice Vieira, Pezinhos de Coentrada




 
http://www.dgidc.min-edu.pt/inovbasic/biblioteca/jornais/jornais-ler-fazer.doc